Fisiologia

 

“Toda experiência profunda se formula em termos de fisiologia” – Emil Cioran

 

hyperliteratura-fiodor-dostoievskiUma fisiologia no âmbito filosófico não é uma neurologia – como vários artigos tentam fazer no caso do romancista russo Fiodor Dostoiévski. O ambiente fisiológico está nos seus romances, mas o “dano” cerebral em alguma parte do lobo temporal não é correlato do livro Crime e Castigo.  O desequilíbrio químico, uma descarga “anormal” de energia pelo corpo, não é correlato d’O Idiota. O fluxo de energia no corpo em uma convulsão pode produzir uma reconfiguração dos neurônios, determinados estados epilépticos podem ainda produzir estados “transcendentais”, “hiperreligiosidades” e “epifanias”, mas elas ainda são únicas – pois, nelas então imbuídas às próprias experiências em primeira pessoa, as vivências, ou qualia.  O ambiente fisiológico que Fiodor Dostoiévski nos dá é belíssimo, tanto em suas reflexões que nos levaria para a psicologia, neurologia, filosofia, quando simplesmente nos dizer que somos animais enfermos e que nossa enfermidade é nossa consciência – a doença é algo constitutivo e não algo externo, assim como a morte.

O alemão Friedrich Nietzsche leva a fisiologia para praticamente dois âmbitos, o fisiológico que análise o corpo – Nietzsche escreve sobre a feiura de SócratesVatsoc, mas poderíamos salientar quando o filósofo julga um corpo velho, ou mesmo já no Nascimento da Tragédia em que diz que o vigor dos gregos está em gastar a energia da juventude na filosofia. Um corpo saudável parece que necessariamente produziria um pensamento saudável, contudo Nietzsche não permanece neste âmbito. O que é saudável é aquele que afirma a vida – Sócrates agora me parece feio, não por causa daquela aparência que um fisiologista vê e relaciona a monstruosidade do rosto, com a monstruosidade da alma, mas Sócrates nos parece feio por negar a vida, por ser um sintoma de decadência no corpo ateniense, por seu Odium Fati.

Albert Camus nos aparece como um corpo doente deste cedo, ele é o jovem tuberculoso, ele também está neste ambiente fisiológico e desta relação com a própria doença há o seu belo despojamento filosófico. Contudo, aquele corpo não se torna um empecilho para uma filosofia afirmativa da vida. Por ele ser adoentado clama desesperadamente por vida – Albert Camus se multiplica, faz-se ator, jornalista, dramaturgo, filósofo, romancista, cozinheiro, dançarino, pai e amigo.968full-albert-camus O Mito de Sísifo é uma terapia para um homem sem Deus. Homem Revoltado é a exigência que com a revolta não apenas recuse, mas sim que evoquemos algo de belo no meio destas novas primaveras.  Albert Camus nos conta no seu ensaio O Homem Revoltado sobre um saldado em um campo de concentração na Sibéria, então podemos imaginar o frio e a dor daquele homem. Mas, ele tem um pedaço de madeira, que então coloca a sua frente. O soldado faz uma postura de quem está na frente de um piano, desenha as teclas pretas na madeira, e então passa a tocar.Neste momento o adoentado corpo se afirma na sua própria beleza – então aquele saldado está ainda mais perto de uma estética, e não muito longe de um pensamento filosófico e saudável.

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